“Doutora, já existe remédio novo para vitiligo?”
Essa é uma pergunta cada vez mais frequente no consultório. E, nos últimos anos, uma das respostas mais promissoras da pesquisa dermatológica tem sido o upadacitinibe, um inibidor seletivo da Janus quinase 1 (JAK1), já utilizado no tratamento de diversas doenças inflamatórias e autoimunes.
Mas uma pergunta é fundamental: ele já pode ser usado para tratar vitiligo?
Por que o upadacitinibe poderia funcionar?
O vitiligo não é simplesmente uma alteração da pigmentação. É uma doença autoimune na qual o sistema imunológico ataca os melanócitos, levando à perda progressiva de pigmento.
Entre os mecanismos envolvidos estão citocinas e quimiocinas que ativam a via JAK-STAT. O upadacitinibe bloqueia predominantemente a JAK1 e, dessa maneira, interfere na sinalização de citocinas relacionadas à resposta imunológica do vitiligo.
A lógica é interessante: ao reduzir a inflamação responsável pela agressão aos melanócitos, podemos criar condições para que a pigmentação seja recuperada.
O que os estudos mostram?
Em 2024, foi publicado um estudo de fase 2, randomizado e controlado, avaliando upadacitinibe oral em adultos com vitiligo não segmentar extenso. Foram estudadas doses de 6, 11 e 22 mg uma vez ao dia, durante 24 semanas, com extensão até 52 semanas.
Os resultados mostraram que a melhora da repigmentação foi progressiva e mais evidente com o tempo. O estudo também trouxe uma informação importante: o efeito não parece ser imediato. A repigmentação continua aumentando ao longo dos meses, o que é coerente com o que observamos clinicamente em outras terapias do vitiligo. (PubMed)
Mas a história não terminou na fase 2.
E agora temos estudos de fase 3
Em 2025, foram divulgados os resultados dos dois estudos pivotais de fase 3, Viti-Up 1 e Viti-Up 2, envolvendo adultos e adolescentes com vitiligo não segmentar.
Os pacientes receberam upadacitinibe 15 mg uma vez ao dia ou placebo. Após 48 semanas, o medicamento atingiu os dois principais objetivos dos estudos:
- redução ≥50% da área corporal acometida pelo vitiligo (T-VASI50);
- redução ≥75% do vitiligo facial (F-VASI75).
No primeiro estudo, 19,4% dos pacientes atingiram T-VASI50, contra 5,9% com placebo. No segundo, foram 21,5% contra 5,9%. Para F-VASI75, as respostas também foram superiores ao placebo: 25,2% versus 5,9% e 23,4% versus 6,9%, respectivamente. (AbbVie News Center)
É importante interpretar esses números corretamente: o upadacitinibe não repigmentou completamente todos os pacientes. Porém, pela primeira vez, temos evidências de fase 3 de que um tratamento sistêmico pode produzir uma repigmentação clinicamente relevante em pacientes com vitiligo não segmentar.
E a segurança?
Aqui está uma diferença importante em relação aos tratamentos tópicos.
O upadacitinibe é um medicamento sistêmico e pertence à classe dos inibidores de JAK, que possui alertas relacionados a infecções graves, alterações hematológicas, eventos cardiovasculares, trombose e neoplasias, entre outros riscos.
Portanto, o fato de o medicamento apresentar resultados promissores para vitiligo não significa que seja apropriado para qualquer paciente.
A indicação precisa considerar idade, comorbidades, fatores de risco cardiovascular e trombótico, histórico infeccioso, vacinação, exames laboratoriais e outras medicações em uso.
Então já está disponível para vitiligo?
Ainda não no Brasil.
O upadacitinibe (Rinvoq®) já possui registro da Anvisa para outras doenças, mas a indicação para vitiligo ainda não está aprovada no Brasil. (Serviços e Informações do Brasil)
E existe uma novidade muito importante: em junho de 2026, o Comitê de Medicamentos para Uso Humano (CHMP) da Agência Europeia de Medicamentos emitiu parecer positivo recomendando a aprovação do upadacitinibe para adultos e adolescentes com vitiligo não segmentar. A decisão final da Comissão Europeia ainda é necessária para a autorização formal. (AbbVie News Center)
Ou seja: o medicamento está muito mais perto da prática clínica específica para vitiligo, mas ainda não devemos dizer ao paciente brasileiro que ele “já está aprovado para vitiligo”.
O que isso significa para quem tem vitiligo?
Significa que estamos diante de uma mudança importante.
Até pouco tempo, a maior parte das estratégias terapêuticas para vitiligo era baseada em medicamentos tópicos, fototerapia e, em situações selecionadas, cirurgia.
Os inibidores de JAK inauguraram uma nova abordagem: interferir diretamente em vias imunológicas que participam da manutenção da doença.
O ruxolitinibe tópico já demonstrou eficácia e tornou-se uma opção aprovada em alguns países. Agora, o upadacitinibe leva essa estratégia para uma perspectiva sistêmica, o que pode ser especialmente relevante para pacientes com doença extensa.
Ainda precisamos entender melhor quais pacientes respondem melhor, por quanto tempo o tratamento deve ser mantido, o que acontece após sua suspensão e como combinar a terapia sistêmica com fototerapia.
Mas uma coisa já podemos afirmar: o upadacitinibe deixou de ser apenas uma hipótese interessante de laboratório. Ele já possui resultados positivos de fase 3 e está avançando no processo regulatório internacional.
Para os meus pacientes brasileiros que perguntam “quando vou poder usar?”, a resposta hoje é: ainda não chegou oficialmente para essa indicação, mas estamos acompanhando de perto — porque talvez não demore tanto.